• Bruno Cassiano

A Copa Particular de Casagrande

Atualizado: 17 de Jul de 2018

FOTO: Ramon Vasconcelos / TV Globo / Divulgação

Em campo trinta e duas seleções se enfrentaram, algumas com objetivo máximo de conquistar a taça mais desejada do mundo do futebol, outras tendo a consciência de que a história já estava sendo escrita pelo simples fato de estarem lá competindo. Foi uma Copa do Mundo com duelos memoráveis, como aquele Portugal e Espanha da primeira fase, e duelos surpreendentes, como aquele Alemanha e Coréia do Sul, também na primeira fase. Mas nem todos competiram contra outros adversários, nem todos almejaram aquela taça dourada e nem todos entraram em campo.


Nas cabines de transmissão da Copa do Mundo da Rússia, equipes esportivas do mundo inteiro compartilhavam o mesmo espaço, trabalhando para levar o evento máximo do futebol ao seu respectivo público. No meio de centenas de profissionais cobrindo o evento e o entorno, lá estava Walter Casagrande, ex-jogador e, atualmente, comentarista de futebol. Poucos sabiam, mas o Casão, apelido dado por colegas e telespectadores, travava sua própria Copa do Mundo na Rússia.


Casagrande, ídolo corinthiano e astro em tantas outras equipes, jogou apenas uma Copa do Mundo enquanto era jogador de futebol, a de 1986. Naquele ano o Brasil ficou apenas em quinto lugar e o Casão alcançaria assim o seu melhor resultado em Copas do Mundo até então. Colocação superada trinta e dois anos depois, neste ano.


É de conhecimento público os problemas do ex-jogador com as drogas, é uma luta travada por ele há muito anos. Se afastou da TV por um tempo, se internou algumas vezes e teve outras tantas recaídas que, provavelmente, lhe davam a sensação daquele jogo ser perdido. Como se fosse um adversário mais forte, que conseguia fazer dois gols a cada um que ele marcava a favor. Esse adversário, tão forte e imprevisível, era ele mesmo.


Comentarista há muito tempo, o objetivo de Casagrande nessa Copa era ir e voltar sóbrio, pela primeira vez em uma Copa do Mundo na qual ele participaria como comentarista. Parece algo simples, parece fácil de ler ou ouvir, mas essa é uma tarefa árdua, vencida pouco a pouco, minuto a minuto, partida por partida, assim como as trinta e duas seleções teriam de fazer em campo. As câmeras estavam voltadas para as nações e seleções de todos os cantos do planeta, quase não deu para notar uma Copa que acontecia em paralelo. A Copa particular de Casagrande.


Foram pouco mais de trinta dias de Copa, sem contar os dias nos quais as equipes já se encontravam na Rússia para devidas preparações, e em todos esses dias pouco a pouco ele vencia, até chegar em sua final particular. Em campo a França se tornava campeã, na cabine o Casão também. Talvez fosse no meio do jogo, bem antes do fim, a chegada da percepção de que ele voltaria para casa com sua taça que vale bem mais do que aquela de ouro erguida pelo goleiro Lloris. Ao final, com a voz embargada, comemorou o fato de ter conseguido. Emocionou os colegas e nos emocionou também. Nosso hexa tardou, mas veio de uma forma surpreendente.


Ele que era atacante em tempos de jogador, mostrou que também é goleiro, que é sólido na defesa, que é um primeiro volante valente e um segundo volante daqueles que sabem tocar a bola. Como meia armou bem o seu time, parou, pensou e se organizou, com inteligência. No ataque, como de costume, foi implacável. Venceu seu pior adversário com maestria, como o melhor jogador de sua própria competição. Casagrande, reserva em 86, nunca venceu uma Copa do Mundo coletivamente, mas esse ano conseguiu erguer a taça individualmente. Esse foi o título mais importante de toda a sua vida, vale o sorriso, as lágrimas e toda a festa possível. Esse momento é muito dele, mas nós fazemos como se fosse nosso também.


Parabéns, Casão.