• Guilherme Lesnok

A gente sobrevive às ondas gigantes


Foto: Galeria Santista

O Santos é o time que brinca com todo mundo. Faz vídeo comemorando a vitória contra o Avaí (e liderança) ao som de É o Tchan no Havaí. É ousado para dizer que a bola puniu o melhor time em campo. Chora com o torcedor uma eliminação injusta. As direções, muitas vezes, não valorizam o escudo que carrega. Aceita o técnico com contrato vigente empurrar com a barriga a resposta se fica ou não.


O Santos, em situação de dificuldade, coloca um magrelo da canela fina e um moleque cabeçudo para jogar o brasileiro e sai campeão. Algumas pessoas, por sua vez, pedem jogadores que estão no banco no coirmão do Rio de Janeiro por meio milhão.


O Santos vive a sua realidade.


Viu um de seus maiores ídolos tocar o pandeiro no vestiário do Atlético-MG. Viu seu camisa 10 ser humilhado na Europa. O trouxe de volta. Aqui, faz promessas de amor. Diz que se sente em casa e beija o escudo do time desenhado no gramado. Então, quando está em alta, vai para o Rio de Janeiro.


Acompanhou a imprensa dizer (como faz todo ano) “Desse ano o Santos não escapa, vai vir o Sampaoli, técnico gringo, outra filosofia, situação difícil, o elenco é limitado (mesmo tendo Sanchez, jogador de Copa do Mundo, Soteldo, jogador de Seleção e tendo investido R$ 70 milhões em jogadores), a Vila não da público, não tem jeito”. Viu jornalista fazer uma enquete dizendo quando o novo técnico contratado seria demitido.


Foi tratado como piada. Viu seu rival gastar milhões. Ouviu gozações, viu seus jogadores novos sendo chamados de “lixaida”. Acuado e assustado, viu o time crescer durante o ano. Viu Soteldo e Sanchez brilharem. Viu também a imprensa questionando a cada tropeço mínimo. Viu eliminações dolorosas, mas concluiu o ano de forma positiva.


Quando o campeonato acaba, pensa que o técnico questionado, humilhado, tratado como vergonha mundial por não conseguir fazer um time com Messi jogar, seria grato, afinal, quando estava desacreditado, a torcida o abraçou. E o buscou no aeroporto. E criou faixas. E subiram nas árvores, gritaram aos quatro cantos do mundo o valor do argentino que aqui estava. Mas não é de hoje que não existe mais identificação, gratidão, valores. Nem do camisa 7, nem do 10, nem de ninguém. Já mostrava ser mais do mesmo nos últimos meses. Nós que não enxergamos.


É que a gente não vê o mundo dessa forma. Nós “só” temos o Santos. Não importa se quem está no banco de reservas é o técnico argentino demitido após Copa do Mundo ou o que veio em alta do Botafogo. A gente não tem essas recompensas, carros, apartamentos de frente para praia, sucesso, luxo... Nós temos o que de mais valor existe: o nosso time.


Ali, nas praias de Santos, longe da mídia, do dinheiro, da badalação. Na ousadia de garotos da base, superando as loucuras de um presidente ou outro, o clube se sustenta. E pula todas essas ondas do tsunami. E brilha na ousadia, no atrevimento, com o amor de sua torcida.


Por estar longe dos grandes centros, o Santos é o clube que não poderia errar. Mas erra. E se mantém grande não apenas por ser o time do Rei, mas sim pela vontade de ostentar essa camisa.


E tudo isso é o que importa.

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