• Felipe Mina

A guerreira, Croácia

Mesmo sem levar o título, é indiscutível que a seleção croata entrou para a hall da fama do futebol. O país chegou no posto mais alto em sua história em Copas do Mundo, sendo vice-campeã.


Os jogadores desta incrível geração foram considerados heróis de guerra, por vencerem diversas batalhas neste mundial, elogio esse, que acaba sendo comum para os nativos. Com população um pouco maior de 4 milhões de habitantes, o país pode ser considerado novo, já que obteve sua independência em 1991, feito esse que iniciou uma guerra contra a Iugoslávia, república na qual pertencia e que foi contra sua separação, aliados ao exército sérvio, que tinha o interesse de conquistar territórios croatas, sem contar as diferenças religiosas dos países.


Jogadores da seleção vice-campeã do mundo, tiveram suas vidas influenciadas pelo embate. Eleito o melhor jogador da Copa do Mundo 2018, Luka Modrić além de ter sua casa incendiada na infância, perdeu seu avô, morto por rebeldes sérvios. O zagueiro Dejan Lovren, vice-campeão da Liga dos Campeões com o Liverpool, teve o irmão de seu tio assassinado a facadas em frente a uma multidão. Mario Madzukic, autor do gol da classificação para a final, se refugiou com a família para o sul da Alemanha.

Considerada muito brutal, a guerra foi cessada em 1995. O país conseguiu manter o seu direito de independência, mas o preço foi alto, com muitas perdas, e precisava de uma alegria. E em 1998, ela chegou.


Coincidentemente no mesmo ano em que a França foi campeã pela primeira vez, a Croácia fez uma excelente campanha, a melhor até então, em sua primeira participação. Em um grupo com Argentina, Japão e Jamaica, conquistou a segunda colocação com tranquilidade, perdendo apenas para a líder, Argentina. Nas oitavas-de-final, a seleção começou a surpreender derrotando a Romênia que era cabeça de chave e líder de seu grupo. Depois, o grande auge, quando eliminaram a tradicional Alemanha com sonoros 3 a 0. Mas a França já seria uma pedra no sapato dos camisas xadrez, eliminando-os na semifinal. Mesmo com a derrota, liderados por Davor Šuker, artilheiro daquela Copa, venceram a Holanda e conquistaram o terceiro lugar.


Com o passar dos anos a Croácia foi crescendo no cenário mundial, aumentando sua frequência nos mundiais ficando de fora apenas da Copa de 2010, na África do Sul. Porém, seus rendimentos ainda deixam a desejar.

Se classificou de forma invicta para a edição de 2002, mas não passou da fase de grupos. Repetiu o mal desempenho em 2006 na Alemanha e 2014, onde em ambas esteve no grupo do Brasil.


Para chegar à Rússia, o caminho era bem equilibrado, em um grupo na eliminatória europeia com Turquia e Ucrânia, com quem era esperado a briga pela classificação. Mas depois de uma épica participação na Eurocopa de 2016, a Islândia liderou o grupo, levando os croatas para a repescagem.


O sorteio da UEFA colocou os gregos em seu caminho, que sem muitos problemas foram goleados por 4 a 1 em Zabreb, e com o empate em 0 a 0 em Athenas, colocou a Croácia em sua grande façanha.

Zlatko Dalić, treinador e grande comandante, assumiu o time no último jogo das eliminatórias, pegando o trabalho já em andamento. Depois de se recusar a entrar em campo no primeiro jogo da Copa, contra a Nigéria, o técnico bancou o corte do atacante Kalinić, e assim conquistou o resto de seus jogadores.

Liderados por Modrić, quatro vezes campeão da Liga dos Campeões, três seguidas pelo Real Madri, Rakitic, meia campeão pela mesma competição com o Barcelona em 2015, Mandzukic, tri campeão italiano com a Juventus, a Croácia chegou com um bom elenco para o mundial. Único impasse, seria estar no grupo de um dos melhores jogadores do mundo, Lionel Messi.


Argentina não chegou a Rússia com facilidade, se classificando no último jogo, e na estreia, um empate com sabor de derrota para a estreante Islândia. No confronto direto, talvez a melhor atuação dos vice-campeões, aplicando 3 a 0 na Argentina, com direito a falha enorme de seu goleiro Caballero.


Como de costume, seu caminho não poderia ser fácil, e na fase eliminatória, a Croácia passou por três prorrogações, duas disputas de pênaltis. Em minutos, é como se tivesse jogado uma partida a mais que os franceses. Talvez esse desgaste, tenha sido um dos fatores para a derrota na final, não deixando esses soldados vencerem outra guerra, mas conquistando um grande feito na história seu pais. Mais uma vez.


Croácia, vice-campeã do mundo (Foto: Federação Croata de Futebol)