• Bruno Nunes

A PROBLEMÁTICA DA RELAÇÃO ENTRE O FUTEBOL FEMININO E A IMPRENSA ESPORTIVA BRASILEIRA

Atualizado: 1 de Out de 2019


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A Copa do Mundo de Futebol Feminino mal começou e já é histórica. Nunca antes o torneio havia tido tamanha relevância no cenário esportivo mundial. Será a maior cobertura realizada do evento. No Brasil, a competição é destaque em todos os jornais esportivos, principalmente devido à ótima estreia da seleção brasileira sobre a Jamaica.


Porém, a imprensa brasileira sempre abordou o futebol feminino e, especialmente a nossa seleção, de uma maneira “oportunista” pelo fato de somente dar destaque a modalidade durante a realização de grandes competições como a Olimpíada e a própria Copa do Mundo, instigando o patriotismo do torcedor para obter audiência. No restante do ano o futebol feminino é escanteado, esporadicamente ganhando algum destaque na mídia, na maioria das vezes com notícias sobre a Marta, principal nome da modalidade no Brasil.


Para explicar essa relação, devemos voltar no tempo e observar a evolução da cobertura midiática sobre o futebol feminino:

Capa do Jornal dos Sports, 17 jul. 1985. Foto: Reprodução
Capa do Jornal dos Sports, 17 jul. 1985. Foto: Reprodução

Nos anos 80, após o fim da proibição da prática do futebol feminino, que vigorava desde 1941, temas como homossexualismo e machismo ganhavam destaques nos jornais esportivos. No texto da parte superior da página, “Futebol feminino quer nova imagem”, o presidente do Radar, Eurico Lira, explica que “[…] No futebol feminino, as garotas não são tão produzidas quanto em outros esportes, como o vôlei, por falta de incentivo”. Uma narrativa machista, numa matéria em que ainda podemos encontrar trechos como “[…] a maioria das pessoas taxa como homossexuais todas ou quase todas as jogadoras dessa modalidade”.


Com a realização do primeiro Mundial Feminino em 1991, a modalidade começou a despontar no cenário esportivo mundial. Já no Brasil, ainda com pouco destaque da imprensa esportiva, o futebol feminino sofria com a falta de estrutura e de visibilidade, o resultado dessa precariedade foi um desempenho ruim no primeiro mundial, apenas a nona colocação, resultado que se repetiria no mundial seguinte.


Já em 1999 nos Estados Unidos, o Brasil conseguiu seu primeiro bom resultado em uma grande competição, um terceiro lugar que despertou a atenção da população brasileira para a modalidade. A partir desse momento a imprensa brasileira começou sua abordagem cíclica do futebol feminino, dando destaque somente quando lhe convém. No intervalo de tempo entre essas competições, a modalidade é esquecida, sendo deixada de lado e evidenciando a falta de atitude dos órgãos esportivos e da imprensa em investir no futebol feminino.


Na maior parte do tempo, algumas emissoras não se preocupam nem ao menos em mencionar os resultados ou a existência de competições. Esse é o ponto fundamental para entendermos a responsabilidade da imprensa na falta de visibilidade do futebol feminino no Brasil. O papel da imprensa deveria ser o de aumentar o conhecimento do público sobre as competições, jogadoras, etc.



Marta, do Brasil, durante o jogo contra a Argentina pelo torneiro Internacional em Brasília, 10 dez. 2014. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.
Marta, do Brasil, durante o jogo contra a Argentina pelo torneiro Internacional em Brasília, 10 dez. 2014. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

Agora, na França, a seleção busca seu primeiro título mundial, muito paparicada como de costume. A questão que fica é qual será o tratamento da imprensa após a realização da competição? O Futebol feminino finalmente entrará de vez na pauta dos programas e jornais esportivos, ou mais uma vez será esquecido até a próxima Copa?


Mais importante do que o resultado da seleção brasileira, será o legado deixado pela Copa da França, talvez a maior oportunidade na história de introduzir o futebol feminino de uma vez por todas no cenário esportivo brasileiro, tornando-a uma modalidade presente no dia a dia da programação esportiva, e não somente de quatro em quatro anos.