• Luana Reis

Através do 7x1, livro reflete a abrangência do futebol

Atualizado: 22 de Mar de 2018


Na foto, os autores Max Gehringer e Darcio Ricca durante a segunda sessão de autógrafos | Foto: Luana Reis


Em “Sete atos, um final?”, Darcio Ricca põe em xeque a postura do brasileiro diante de questões políticas, sociais e, também esportivas; a obra foi lançada no Museu do Futebol no sábado


Quarta-feira, 8 de julho de 2014. Esta é a data que mudou de vez a vida do torcedor brasileiro. Até este dia, ecoava na memória futebolística do país a lembrança do ‘Maracanazzo’ – duelo entre Brasil e Uruguai, no Maracanã, que terminou com o título da Copa do Mundo de 1950 nas mãos dos visitantes. Mas, mal sabíamos que 64 anos depois seríamos “chacoalhados” por um placar mais gordo, de 7x1, em casa, na semifinal do Mundial de 2014, diante da Alemanha.


Desde então, as conversas nos botequins e praças, nos pontos de ônibus, nos escritórios já não são mais as mesmas. Nasceu, no Mineirão, naquela quarta-feira julina um placar histórico para a bandeira verde-amarela, uma nova expressão para o vocabulário popular e, também, um novo jeito de encarar a vida.


O 7x1 que nos fora aplicado e que resultou na eliminação daquela Copa está, agora, documentado também em livro. “Sete atos, um final?”, de Darcio Ricca e Max Gehringer, faz uma análise sociopolítica do futebol, contrapondo fatos que ocuparam – e que ainda ocupam – os noticiários, tal como a Operação Lava Jato, e que, direta ou indiretamente, refletiram nos gramados do Torneio.


A obra foi lançada no Museu do Futebol, no sábado (17), e o evento contou com discussões entre o público e os autores, duas sessões de autógrafos e música grátis. No final, o gestor esportivo da Confederação Brasileira de Golfe e pesquisador Darcio Ricca, 45, conversou com a De Prima sobre o processo de produção e a importância da temática.




A percussionista Pitee Batelares, à esquerda, e a cantora Gabi Albuquerque | Foto: Luana Reis


Por que escrever sobre o 7x1?


“Fiquei revoltado pelo fator esportivo, a falta de planejamento, cuidado com alto rendimento, performance... Numa boa? Para mim, o que foi pior ainda, o que me deixou mais revoltado foi a entrevista do dia seguinte [ao resultado]. Felipão fazendo prestação de conta com uma planilha, o Parreira lendo a carta da D. Lúcia, que virou ‘fake’ na internet depois... Aquilo, para mim, que trabalho com esporte de rendimento, foi uma vergonha. Não o 7 a 1 em si, mas o dia seguinte”.


Relembre: Parreira lê carta de D. Lúcia após eliminação do Brasil


O 7x1 para além dos gramados


Logo no início da entrevista, Ricca observou que o evento alcançou muitas pessoas, com divulgação feita em redes sociais e também nas mídias tradicionais, mas que, nem metade do público esperado havia aparecido no lançamento. Para ele, isso exemplifica como o placar mexeu com o brasileiro. “Há quem diga que não é uma vergonha, mas veja só, não apareceram tantas pessoas, conforme o esperado, para falar sobre o assunto. E por quê? Porque as pessoas não gostam de mexer nessa ferida”.


Segundo ele, o livro “disseca o cadáver” do placar, já que retoma o cenário pré-Mundial – Brasil campeão da Copa das Confederações, em 2013, e as manifestações que ocorreram no mesmo ano –, durante e depois. “Ficamos no berço esplêndido, achando que já tinha dado tudo certo. ‘A CBF é o Brasil que deu certo’, como disse o Parreira, sabe?! ‘Estamos com uma das mãos na taça’... E assim seguimos. Com os estádios, as ofensas, as agressões [dentro e fora dos estádios], o cotidiano, o que a imprensa internacional pensava sobre a Copa – que não aconteceria”, entre outras coisas.



Na foto, Luiz Romano, integrante do Memofut | Foto: Luana Reis


“Futebol, um espelho das nossas relações”

Há quem diga que a nossa classe política e seus valores são reflexos dos eleitores. Mas será que podemos dizer o mesmo sobre o futebol? Ricca acredita que sim. Além de apontar a intolerância discursiva e a violência, presentes dentro e fora dos estádios – e nas rodas de debate acerca das políticas públicas –, neste livro, o autor também destrincha a “higienização dos estádios” – que é, basicamente, restringir o acesso das classes mais desfavorecidas aos parques esportivos, por meio da elevação de preços de ingressos.


Para exemplificar, Ricca fez uma analogia do modelo tático da Seleção com a sociedade. “Era um espaçamento de defesa, meio-campo e ataque. O espaçamento, essa coisa meio perdida dentro das quatro linhas, era igual à nossa sociedade”, afinal, “quem estava lá, pagou ingressos de quatro mil reais, na higienização dos estádios. Negros e pobres não entravam, apesar de ter sido dito que índios iriam [assistir] aos jogos. Uma balela. Só a elite nacional estava presente e o único negro [no Mineirão] era o Thiaguinho, o sambista, amigo do Neymar”. A ‘geração selfie’, como se referiu ao público presente, "estava numa espetacularização midiática em cima da Seleção Brasileira, dentro da Granja Comary”.


Mas afinal, poderia ser diferente?


Darcio acredita que “o brasileiro sempre vai arranjar uma desculpa pra tudo”, terceiriza a culpa, pois "falha no planejamento, na execução” e, até mesmo, na prestação de contas.

Dentro das quatro linhas, a Seleção mostrava raça, mas não tinha experiência. Para o autor, ainda assim, não faltou comprometimento. “É a geração do selfie, das redes sociais”, afirmou criticando a postura da delegação.


Acredita em um novo 7 a 1?


Quando perguntado sobre a chance de acontecer um novo 7x1, no Mundial da Rússia, neste ano, Ricca respondeu que é evitável. Porém, o Brasil ainda é o país do coronelismo, do paternalismo, visto que mistifica a figura do jogador, transformando-o em ídolo e, ao mesmo tempo, criando um – no mínimo – bode expiatório. No caso da Seleção, Ricca sugeriu a figura de Dunga como tal.


Uma conta necessária


Mesmo sendo uma conta cara a pagar, com a eliminação do Torneio, o brasileiro soube “tirar proveito” da situação. Ou ao menos tem tentado, por meio de memes, que sacramentaram a expressão que caiu na boca do povo: “cada dia um 7x1 diferente”.


Todo dia é um 7x1 diferente na vida de milhões de brasileiros.


Mas que não esqueçamos que tudo nessa vida tudo tem um lado bom e um outro, ruim, principalmente o futebol.


O importante é ser resiliente.


Darcio, por fim, acredita que “pagamos juntos a conta do 7x1”, mas que foi bom. Pois precisávamos de um ‘click’, “como esporte e como país”. Só nos falta, ainda, amadurecer e enxergar o futebol como um produto da política, do convívio social.

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