• Bruno Cardoso

CRÔNICA: ENTRE AS BONECAS E O FUTEBOL


Foto Montagem

Fecho os olhos e vejo a minha infância passando como um filme. As memórias das brincadeiras, as gargalhadas, e as risadas que tanto me machucaram.


Até os meus 10 anos, eu era uma garota comum, gostava de brincar de boneca, de casinha, como todas as meninas da minha idade. Mas foi em uma terça-feira ensolarada, durante a aula da professora Magda, de educação física, que eu realmente o notei pela primeira vez. Já ouviu falar em amor a primeira vista? Nesse caso foi amor ao primeiro chute!


O sorriso dos meninos apareceram, a cara de nojo das meninas também. Meninos na quadra, meninas na parede, como de costume. Ou melhor, dessa vez não. A professora Magda mandou formar times em duplas, um menino e uma menina, que, de mãos dadas, valiam por um jogador. Times em quadra, a professora me colocou com o Gabriel, um dos meninos mais quietos da sala. Acho que falei com ele uma vez apenas, quando na aula de geografia ele veio pedir a borracha emprestada.


Ele sorriu para mim, perguntou se eu já havia jogado futebol, mas eu nem sabia o que era futebol. As ordens da brincadeira era que não podíamos soltar as mãos, e só as meninas podiam chutar a bola. Ai meu Deus, que vergonha!


Acho que o Gabriel percebeu o nervosismo, ele apertou a minha mão e sorriu novamente. Lembro como se fosse ontem ele dizendo: "é só olhar a bola e se concentrar na hora de chutar, o restante você vai aprender jogando." Então eu fui...


Fui a primeira a marcar um gol, e que sensação foi aquela? Eu nunca havia sentido nada igual. A euforia de ver a bola estufando a rede, as arrancadas que demos ganhando dos outros alunos que as vezes tropeçavam em si mesmos ou nos companheiros. Eu sentia meu coração bater forte, algo surreal, e o Gabriel apenas sorria.


Quando sai daquela aula eu acredito que nasceram novos sonhos. Eu estava decidida, queria ser jogadora de futebol.


Ao chegar em casa, contei pra minha mãe, que não esboçou nenhum sorriso. Meu pai chegou mais tarde, após um dia cansativo de trabalho. Me deu um beijo e perguntou sobre a aula, a alegria me invadiu e comecei a contar que tinha feito três gols, quando ele me interrompeu: "Filha, futebol é coisa de homem!" E de cara fechada saiu, me deixando sozinha no sofá.


Decidi começar a jogar por conta própria com os meninos da rua, onde sempre acaba ouvindo uma piadinha: "E aí, Maria homem." ou "Quantos pratos você já lavou hoje?"


Tudo aquilo me machucava muito, mas sempre ignorei. Somente meu travesseiro sabe quantas noites fui dormir chorando, mas o amor ao futebol sempre foi muito maior que isso.


Todas as datas festivas da família durante alguns anos foram movidas a provocações. Tias dando de presente chuteira, bola, camisa de time, enquanto os tios davam bonecas, sapatilhas, e me provocando falando que aquilo sim era coisa de mulher.


Tive que escolher: A boneca ou a bola. E me desculpem as bonecas, mas o futebol me conquistou, e não me sentiria completa deixando de lado algo que aprendi a amar tanto.


Com o passar dos anos fui ganhando meu espaço, até um dia ser convidada para fazer um teste em um time de futebol feminino, então eu fui. No final do jogo, ao ouvir o meu nome entre o das escolhidas, não consegui conter as minhas lágrimas.


Aos 16 anos chegou a primeira proposta de contrato, meus pais já começavam a aceitar melhor, mesmo que receosos, e me orientando a nunca largar os estudos, já que futebol para mulher não dá futuro.


Já se passaram 15 anos desde o dia que me apaixonei pelo futebol, e hoje eu vivo dele. Que loucura não é mesmo?


Me sinto como naquela quadra da escola, o frio na barriga e a ansiedade estão me transbordando enquanto coloco o meião. O suor escorre meu rosto enquanto amarro a chuteira. Uma voz ao fundo grita: "Vamos meninas, pro túnel, agora!" Me levanto e sinto as pernas meio bambas, o calafrio que vem na espinha da minha coluna a cada passo que eu dou.


No final do corredor escuro enxergo uma escada, que subindo tem uma luz muito forte. Eu devo ser a quarta ou quinta na fila, a cada passo me tremo mais, me sinto tão feliz, tão realizada, mas ao mesmo tempo com tanto medo.


O primeiro pé a pisar na grama é o direito, meio desengonçado, e o barulho ensurdecedor da torcida gritando e cantando. Eu estou admirada. Me faltam palavras.


Me direciono ao centro do campo, onde darei o primeiro toque para iniciar a competição, confesso que tenho medo de errar, mesmo já tendo feito isso tantas vezes. O juiz apita... Começou a Copa do Mundo de Futebol Feminino 2019!