Deixa elas


FOTO: Sergio Barzaghi/ Gazeta Press

O sol lá do alto brilhava forte, tão forte quanto o calor vindo dele. Suor brotando da testa e muita sede, mas estava sorridente.


Lotação e metrô cheios como de costume e trânsito à frente. Foram duas horas de trajeto no transporte público, mas continuava sorridente.


Enquanto estava a caminho da Arena Corinthians na tarde de quarta (24) a única coisa na qual conseguia pensar era como aquela tarde seria histórica, como aquele evento poderia influenciar inúmeros outros a acontecer. Era isso que estava me deixando sorridente.

Corinthians x Bahia/São Francisco jogariam em partida válida pela primeira rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Seria a primeira vez na qual o time feminino do Corinthians jogaria como mandante e em sua casa. As partidas geralmente acontecem no Canindé.


O horário não favorecia, não é todo mundo que está disponível às 17H30 em uma quarta-feira. Mas os ingressos estavam a preços acessíveis e haveria a transmissão da Copa do Brasil masculina logo após o jogo das mulheres. Completamente atrativo.


O público não chegou a quatro mil torcedores, nenhum setor se esgotou. Mas o horário não ajudava, quando elas estão em campos espalhados pelo Brasil, o horário nunca ajuda. Mesmo assim lá estavam elas, com jogadas tão brigadas quanto estamos acostumados a ver no futebol, mas com uma lealdade que quase foi esquecida como pilar de quem pratica esporte.


Elas não ganham salários milionários, não recebem patrocínio, praticamente são quem divulgam os horários e locais onde estarão. Raramente jogam em gramados impecáveis como o da Arena Corinthians, raramente não lidam com amadores que são feitos dirigentes por terem contatos e não capacidade.


Elas são muito menosprezadas, grande exemplo disso foi a pouca repercussão do heptacampeonato conquistado por nossa própria seleção na Copa América Feminina. Foi com cem por cento de aproveitamento, valeu vaga para a Copa do Mundo do ano que vem e para as Olimpíadas de Tokyo, em 2020. Taça erguida por nossa capitã Marta, a maior jogadora brasileira de todos os tempos. Foi pouco visto.


Quem para e vê essas meninas em campo não tem de prestar atenção apenas em seu comportamento com as bolas nos pés. Tem de reparar no olhar delas para o entorno, para o campo, para as adversárias... Para a vida. Quem assiste ao futebol feminino e não percebe o brilho obstinado no olhar de cada uma delas, assistiu errado. Quem não consegue perceber a força de cada uma delas, assistiu mais errado ainda. É impressionante a garra e a força que emana de cada uma delas.


No fim todas elas jogam juntas, em um único time, porque sabem que muitas outras coisas jogam contra. Mas deixa. Nunca foi fácil para elas, porém olha onde estão. Nenhum espaço ou pedaço de campo que seja veio de graça, mas olha onde elas já chegaram. Deixa elas que o caminho delas “tá” decidido, apesar de mal planejado por terceiros, é bem percorrido por elas mesmas.


Deixa continuarem o trabalho delas, porque assim também continuarão a fazer o que fizeram na Arena Corinthians, história!


(Antes que eu me esqueça, o Corinthians venceu, mas quem ganha mesmo é quem sabe apreciar o melhor esporte do mundo aos pés delas).