• Vinicius Rodrigues

FUTEBOL É O ESPORTE DO POVÃO


O futebol não tem mais setores populares, tornou-se um esporte para uma classe elitizada. Foto: Leonardo Araújo


A paixão de um torcedor, na maioria das vezes é criada através de um laço familiar. Para um pai é algo extremamente gratificante conseguir passar o amor pelo seu clube, para um filho, e quando esse ritual é quebrado através de uma pessoa próxima, que tem a consciência que o pai daquela criança é torcedor do São Paulo ou do Corinthians, e presenteia o seu sobrinho, neto, enfim com uma roupa de outro time, por exemplo, do Palmeiras ou Santos, quebra essa tradição. Lá em casa o ritual foi mantido, e é o meu clube até hoje.


A primeira vez no estádio é algo memorável, indescritível, faltam palavras para decifrar tal momento. Um misto de sentimentos em ver os jogadores que você tem um carinho à mais de perto. Ter noção do que é ser um torcedor de verdade, com cânticos, incentivando o seu time contra o adversário. É uma parada que você não se contém, e quer contar para os amigos tudo aquilo que vivenciou, e fica como um marco na sua infância. Aos meus 7/8 anos, o acordar dos domingos eram diferentes, ao notar que mais tarde estaria apoiando meu time, era muito prazeroso, as horas não passavam, a ansiedade gritava dentro de mim, o custo dos ingressos dava condição ao meu pai fazer isso com uma certa frequência.


Nos dias atuais, é notório o rompimento desta tradição, os pais podem até conseguir compartilhar do seu amor pelo clube que torce, para um filho, porém levar ao estádio tem sido muito complicado devido aos custos que os dirigentes impõem, explorando esse lado sentimental do torcedor. Os clubes começaram a investir nos planos de sócio torcedor, e criaram uma forma de baratear apenas para quem é sócio, deixando de lado quem não tem uma boa condição financeira, para manter um plano, fora as vantagem que são dadas, de quanto mais este torcedor for aos jogos, mais pontos são acumulados. Ou seja, as arenas podem até receber um público bacana, e ter uma média alta de torcedores, mas a maioria das vezes serão as mesmas pessoas.


“Sócio-torcedor por um lado tem suas vantagens, mas por ser um frequentador antigo de estádio, entendo que nem tudo é favorável. O pré-jogo, as semanas que antecediam os jogos foram arrancados, não é comum mais hoje em dia filas enormes para o torcedor adquirir o seu ingresso, aquele amor de fazer um sacrifício para vê seu time foi deixado de lado”. Disse, Luciano Bernades, torcedor do Corinthians.


Antigamente era comum este tipo de cena Foto: Luís Nascimento


O que é triste nisso, que o esporte no qual é destinado ao povão, aonde as reformas, as novas arenas, modernizações feitas geraram um custo benéfico apenas aos clubes, e não aos torcedores com uma classe inferior, trazendo para os nossos estádios um público diferente, mais elitizado, que além do seu ingresso, paga estacionamento, compra lanches ao redor do estádio, toma uma cerveja, é o que tem sido comum no país do futebol.


Este é o tipo de torcedor que frequentam as novas arenas, que são a favor do conforto, e podem ver os jogos sentados, e pagam caro por isso. Para muitos após a Copa do Mundo o nosso futebol iria mudar para melhor, mas após 4,5 anos é notório a carência nas arquibancadas, a falta de estádios com festas, com o torcedor de forma petulante empurrando o seu time. O futebol está virando teatro, triste dizer isso, mas é a grande verdade.


“Os preços exorbitantes dos ingressos tem afastado os torcedores que realmente fazem a festa nos estádios. É notório que o perfil dos torcedores é de classe média, pois um torcedor que sobrevive com um salário mínimo, não tem condições de manter-se e custear os ingressos que tem como preço médio o valor de R$ 80,00 por jogo. Sendo assim, as festas tem sido cada vez menores e os respectivos times tem perdido o poder que era imposto pelo seu mando de campo, salvo as torcidas organizadas que ainda fazem as suas festas. O futebol é o esporte do povo, das grandes massas, do proletariado, os valores cobrados atualmente, vem elitizando as arquibancadas, é preciso que os dirigentes dos clubes percebam esse fato que é real e retornem as origens do verdadeiro futebol, onde a torcida vira o 12º jogador e não um mero espectador.” Relatou, Andréa Lima.


O futebol respira por aparelhos, muita coisa precisa ser policiada, dirigentes tem que olhar todos antecedentes, e perceber que as festas eram mais bonitas, do que ter arenas com bons públicos, porém sendo apenas platéia, porque apenas acompanham o jogo, não participam, não fazem da arquibancada um lugar para extravasar, um lugar de místicas ao seu time.


Alexandre Kalil ex-presidente do Atlético Mineiro, e atual prefeito de Belo Horizonte, disse as seguintes palavras. “No mundo é assim. É só copiar. Pobre assiste na televisão, e rico vai no estádio. Isso é discriminação? Não, não é, não é discriminação”, afirmou, em entrevista ao “UOL”.


Esse talvez seja o pensamento da grande maioria dos diretores, esquecem que estamos inseridos em uma sociedade aonde a cor, classe social, discriminação, tem falado mais alto, e que o futebol tem a magia de unir, o preto ao branco, o pobre ao rico, mas preferem copiar o que está sendo feito no mundo, Kalil afirma que quando foi presidente do Atlético-Mg não praticou a política de ingressos caros. “Estou copiando. Não sou a favor. Não é opinião minha, é copiar o que deu certo no mundo.”


Espero que os dirigentes revejam o crime cultural que estão cometendo, e compreendam que estão impedindo que o futebol alcance uma paixão popular, pessoas que não conseguem desfrutar deste esporte pela forma exagerada na qual estão elitizando o futebol no nosso país.


Morumbi recebeu 146 mil pessoas para acompanhar Corinthians e Ponte, torcedores pagaram cerca de R$ 8 no ingresso


Quando tratamos de elitização, não há melhor exemplo de quem viveu as duas eras do futebol. “Estão acabando com a essência do Futebol com preços abusivos, tem sido muito complicado ir aos jogos, mas quem vive e ama este esporte quer vê seu time jogar, até porque essa é a alegria do brasileiro. Porém vivemos em um país aonde o salário que nós temos não é compatível para vivenciar essa alegria constantemente”. Nos contou Luciano, que rodou o Brasil para está ao lado Corinthians, conheceu estádios como Ilha do Retiro, Engenhão, Olímpico, Arena Pantanal, Arena Pernambuco, Caio Martins, as novos e antigos, Maracanã, Beira-Rio, Castelão, Fonte Nova. Ele completa dizendo; “o futebol é do povo, o futebol é de todos”.


Um setor dentro do estádio com 5 mil ingressos por jogo com preços populares, não irá deixar as arenas mais feias, ou o clube mais pobre. Pelo contrário, enriquece o espetáculo, além de aproximar o torcedor do seu time. Única coisa que não deveria continuar sendo feita, é a exploração da paixão dos amantes deste esporte chamado futebol.