• Bruno Cassiano

Não pode

FOTO: Divulgação



Na década de setenta duas torcidas podiam coexistir no mesmo estádio, podendo até dividi-lo meio a meio. Hoje, não pode.


Também na década de setenta, a festa da torcida campeã era tão grande que não era raro ver a alegria transbordar até o gramado. Hoje, não pode.


Sinalizador, bandeira e bandeirão, e instrumento musical, tinham presença garantida. Hoje, não pode mais.


Era permitido gritar, xingar, cantar, pular, aplaudir ou vaiar. Era permitido torcer. Hoje, há relatos de torcedor sendo expulso pelo simples fato de torcer de pé.


Antigamente o futebol era do povo, assim como o povo podia ter o futebol. Hoje, não pode mais. O público-alvo do futebol mudou, hoje não querem que o pobre vá mais e faça baderna, o que querem é o admirador de ópera que se emociona e só levanta para aplaudir o final do espetáculo quando as cortinas se fecham.


Talvez essa nem fosse a intenção no começo, mas agora é. O povão atualmente se contenta em ver os estádios do lado de fora, com o olhar esperançoso de um dia poder entrar ali. O preço a pagar é alto demais para o tanto de restrição que aguarda do portão para dentro.


O futebol nos dias atuais é moldado para um público sem emoção, tão apático quanto o que acontece dentro das quatro linhas. A modernidade chegou para mostrar que talvez o futebol fosse daquelas poucas coisas da vida que são perfeitas quando mantidas intocadas.


O povo brasileiro que usava o futebol como meio de escape, luta para ele não ser mais um motivo de estresse. Está tudo bem chato, sem cor e sem som, perto do que foi um dia, perto do que é até hoje o futebol argentino. Nós temos cinco estrelas, eles têm a festa.


Infelizmente está bem melhor e mais barato assistir aos jogos de casa, reunindo amigos e familiares e aí sim ter a liberdade de torcer, comemorar ou chorar sem qualquer proibição. O medo é voltar a este texto daqui a dez anos e com os olhos marejados perceber que ainda podíamos muito.


A gente torce, com um fio de esperança que custa a se romper, pela volta do nosso esporte. Mas nesse jogo o adversário tem dois jogadores a mais, a vantagem de quatro gols e um pênalti a favor. A luta é desleal, é quase uma causa perdida, mas sabemos que o que não pode mesmo, é deixar de acreditar que o dia volte clarear.