• Bruno Cassiano

O VAR E A PRECISÃO


FOTO: Fernando Torres/CBF

A quadra característica das disputas de vôlei tem uma particularidade interessante, dependendo do material no qual ela é feita. Quando a bola toca o solo com determinada força no impacto, uma marca denuncia o local exato. Mas isso é só um detalhe entre muitos que acontecem no esporte, um dos mais rápidos em seus lances. É pouco para evitar muitas outras possibilidades de erros nas marcações.


É no vôlei também que há a possibilidade do desafio, o lance é visto e revisto e tem no replay o veredicto de qual a decisão correta a ser tomada. Os times têm determinados números de desafios por sets e quando pedido levianamente ou se confronta com um acerto da arbitragem, os desafios seguintes não podem ser efetuados. A tecnologia é boa, decisiva e ajuda muito para que não ocorram injustiças ou para que elas ocorram com menos frequência.


No tênis há algo semelhante, cada tenista tem direito a três desafios para contestar uma decisão da arbitragem que ache equivocada. A tecnologia é chamada de Hawk-Eye ou, em português, Olhos de falcão, alusão à ave de rapina que consegue enxergar sua presa a mil e quinhentos metros de altura enquanto está caçando. Isso dá o tom do quanto a tecnologia pode ser precisa.


No futebol, há pouco, começamos a nos ambientar com o VAR, o árbitro de vídeo. Os mais entusiastas do recurso utilizavam as experiências das tecnologias acima para defender e incentivar o uso no futebol. Com base nos acertos e correções no vôlei e no tênis, o VAR realmente parecia a solução dos problemas de arbitragem no esporte mais popular do mundo, a prática nos diz que não é o caso.


Tanto o vôlei, quanto o tênis têm regras muito bem definidas para que a revisão de um lance seja acionada, e nenhum dos esportes é de contato físico com o adversário como o futebol, dessa forma a arbitragem não precisa interpretar as reais intenções dos jogadores e jogadoras contra o time adversário na esmagadora maioria das vezes. Algo que do meu ponto de vista colabora com que a precisão aumente consideravelmente, mesmo que não chegue a cem por cento.


Toda tecnologia é imprecisa em determinada porcentagem, nada consegue atingir cem por cento de perfeição. Isso porque todos esses recursos são criações e são operados por humanos, que estão sujeitos a erros, sejam eles propositais, por determinado motivo, ou sem intenção. Talvez esse seja o maior problema de nosso arbitro de vídeo.


Aqui no Brasil trocamos a frase "o VAR precisar ser implantado logo" pelas perguntas "o VAR validou isso?/ como que o VAR não viu esse lance?". As expectativas estavam mais altas do que deveriam com a promessa de um esporte mais justo. Não consideramos as equipes, o treinamento e nem as condições nas quais o VAR seria utilizado. Infelizmente a tecnologia e o usa dela não podem nem ser comparadas às tecnologias dos esportes citados acima, é muito inferior.


As revisões de lances no nosso futebol, é bem provável, não acabarão com as injustiças aos times e jogadores e jogadoras, não vão chegar nem perto disso. No futebol o conceito de acerto também é relativo e interpretativo, onde alguns conseguem ver um lance claro de irregularidade, outros não enxergam a mesma coisa e apenas mandariam o lance seguir. Não há como interpretar as intenções e a força através de um vídeo, independente de quantos ângulos ele tenha sido gravado.


Só teremos uma precisão maior e decisões mais justas com recursos tecnológicos quando as reais intenções e níveis de força de cada jogador, aplicado à cada lance, sejam completamente conclusivos nas revisões. Para isso tudo dentro das quatro linhas teria de ser cercado de sensores, inclusive os jogadores. O esporte orgânico, pularia a fase ciborgue direto para a plenamente mecânica. Espero que não cheguemos a esse ponto, do contrário, aí sim, o futebol terá perdido a graça.

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