• Bruno Nunes

PAREM COM O FUTEBOL


Torcida do Flamengo promove aglomeração nos arredores do Maracanã. / FOTO: ALEXANDRE LOUREIRO / REUTERS



No momento em que atingimos a marca de 250 mil mortos pela Covid -19 no Brasil, um surto de surrealismo atinge parte da população. Uma parcela considerável da sociedade simplesmente abandonou as recomendações sanitárias no momento mais crítico da pandemia (coisa de louco não é mesmo?).


Um fator que tem contribuído para a promoção de aglomerações é o nosso querido Futebol. Sim, o Futebol, mesmo sem torcidas nos estádios, está acelerando a proliferação do vírus.


As cenas de torcedores eufóricos registradas nas fases decisivas da Libertadores e do Campeonato Brasileiro por exemplo, feitas nos bares e ruas das principais cidades do país, deixam clara a falta de capacidade do poder público para evitar essas concentrações de torcedores. É uma tolice proibir a entrada das torcidas nos estádios e ser conivente ou passivo em demasia com aqueles que promovem aglomerações nas ruas.



Palmeirenses na final da Libertadores. / FOTO: BRUNO ROCHA / ESTADÃO CONTEÚDO

Em um momento como esse que estamos vivendo, a prática esportiva chega a perder o sentido. Afinal de contas quais são os valores universais do esporte?... Amizade? Lealdade? Respeito? Ora, nenhuma dessas virtudes podem ser encontradas em um contexto de pandemia. A festança de alguns se faz sobre cadáveres, e não estou sendo demagógico ou "mimizento", como dizem por aí. Existe lealdade ou respeito com aqueles que sofrem, quando, em razão de um título conquistado, se promove a quebra do pacto civilizatório, provocando aglomerações enquanto profissionais da saúde clamam por ajuda nos hospitais? É claro que não!



Torcida do São Paulo lota as ruas próximas do Morumbi. / FOTO: MARCELO HAZAN

Não devemos creditar todo o caos sanitário que vivemos na conta dos torcedores irresponsáveis, os clubes e o poder público também possuem sua cota de responsabilidade, ou - com um pouco de logística e boa vontade - não seria evitável as cenas de torcedores escoltando ônibus ou invadindo aeroportos?



Sei das dificuldades enfrentadas por aqueles que dependem do Futebol para sustentar suas famílias - e não estou falando dos ricos e milionários atletas da elite do esporte (todos merecedores do salário que ganham diga-se de passagem, não é essa a questão) - mas falo daquelas pessoas anônimas que trabalham para fazer o futebol acontecer. Repórteres, roupeiros, atletas das divisões de acesso, todos sofrerão com a falta do futebol, inclusive nós aqui da De Prima. Mas eu me recuso a aceitar o descalabro que se faz em nome do esporte mais popular do Brasil. Por isso eu digo… parem com o futebol.