• Alexandre Cardillo

RELEMBRE AS TRADIÇÕES DA MÍSTICA URUGUAIA NO TRICOLOR PAULISTA


O São Paulo Futebol Clube é o time no Brasil que, com toda certeza, tem mais identidade com jogadores nascidos no Uruguai. Ao longo da história, inúmeros atletas celestes vestiram às cores do Tricolor do Morumbi, alcançando glórias e tornando-se ídolos do clube. Vamos relembrar.


Na década de 1930, alguns atletas do país vizinho, que um dia já foi pertencente ao nosso território, se firmaram como titulares em um time que ainda tentava se consolidar dentre os grandes da capital paulista. Vale lembrar que a rivalidade entre Corinthians e Palestra Itália (anos mais tarde, Palmeiras), era latente. O São Paulo Futebol Clube da Floresta à época, “corria por fora”, como dizemos no dito popular, para rivalizar com estas duas agremiações de peso. Alguns jogadores como Armiñana, Vega, Gutiérrez e Acosta foram importantes na transição para o São Paulo Futebol Clube, no ano de 1935. Porém, com a instabilidade do time que brigava para se impor na elite do futebol Bandeirante, tais nomes acabaram ficando pelo caminho. Todavia, a importância deles ainda está na memória do clube. Na década seguinte, mais dois jogadores vieram a vestir a camisa são-paulina. Com muita raça, característica do futebol uruguaio, Squarza e Ramón brilharam junto a uma geração das mais extraordinárias da história. A áurea década de 1940 mostrou um São Paulo “atropelando” seus rivais e se afirmando como uma das maiores forças do futebol paulista e é claro, do esquete brasileiro. Capitaneados por Leônidas da Silva, o Diamante Negro, estes dois uruguaios ajudaram e muito no pilar marcador e contribuíram para que a torcida tricolor passasse a enxergar os uruguaios como o esteio da força em campo. No ano de 1951, mais uma contratação celeste. Desta vez, Urruzmendi se destaca junto ao time. A década de 1960 é marcada pela estiagem de títulos. O São Paulo perdura por 13 anos sem levantar um Troféu, muito em virtude dos esforços financeiros destinados à construção do Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi. Em 1970, um dos maiores jogadores uruguaios é anunciado como o novo reforço do São Paulo. O meia Pedro Rocha, com estilo de jogo clássico e muita visão de jogo, é um verdadeiro divisor de águas no estilo força física. Ele primava pela elegância em campo e ao lado de seu compatriota Pablo Forlán, conquistaram títulos importantes, como os Campeonatos Paulista, nos anos de 1970 e 1975. Dois anos mais tarde, a revelação do futebol celeste parte rumo ao Tricolor. Com muito vigor físico, Darío Pereyra tem uma passagem irretocável e ajuda o São Paulo a conquistar seu primeiro Campeonato Brasileiro, no ano de 1977. Com esta conquista emblemática, a torcida são-paulina abraça de vez os uruguaios. A cada nova contratação, delírio total nas arquibancadas. O lendário Pedro Rocha deixa o clube em 1979, mas Darío Pereyra continua carreira, conquistando o Paulistão nos anos de 1980, 1981, 1985 e 1987, além do bicampeonato nacional, em 1986. Um zagueiro ícone, que até hoje é reverenciado pelos lados do Morumbi. Alguns outros uruguaios vestiram a camisa do São Paulo, mas com passagens mais modestas. Foram os casos de Furtenbach, Carrasco, Diego Aguirre, Matosas e Álvaro Pereira. Mas a tradição dos “uruguaios são-paulinos” voltaria com enorme força no início dos anos 2000. A contratação de Diego Lugano, em 2002, resgatou a mística uruguaia no Tricolor paulista. A torcida aplaudiu, mesmo sem saber ainda de quem se tratava. A imagem de Lugano era vista como um jogador de muita força, marcação e dedicação. Um detalhe: quem descobriu Diego Lugano foi Diego Aguirre, jogador do São Paulo, em 1990. Aliás, no parágrafo seguinte, vou falar de Aguirre. Voltando a Lugano, sua estreia tardou. Aconteceu um ano depois, em 2003. Mas quem realmente apostou no seu futebol, foi Émerson Leão. O ex-goleiro e então técnico do São Paulo, escalou Diego Lugano na zaga, durante o Campeonato Paulista de 2005. Se destacou e foi primordial na conquista do estadual daquele ano. A chegada de Paulo Autuori, técnico que substituiu Leão, fez Lugano crescer ainda mais no São Paulo. Um líder nato. Com Lugano, o São Paulo volta a conquistar uma Copa Liberadores da América e um Mundial de Clubes, após 12 anos. E Lugano entra de vez, para a galeria dos grandes ídolos do São Paulo. Deixa o clube em 2006, mas retorna 10 anos depois, em um momento de turbulência. Mas é um dos líderes e porta-voz para os mais jovens. Não teve uma segunda passagem brilhante. Longe disso. Mas sua moral e idolatria era e continua sendo maior do que tudo, dentro do clube. Hoje, Lugano tem um cargo diretivo.



Reservei para este parágrafo, o retorno de Diego Aguirre ao São Paulo. Conforme já mencionado no parágrafo anterior, Aguirre foi jogador do clube e o descobridor de Lugano. Como jogador profissional, passou despercebido no time do Morumbi. Mas agora, em pleno 2018, vem para assumir o cargo de técnico, no lugar deixado por Dorival Júnior. E como costumamos dizer, o mundo dá voltas. Desta vez, quem indicou o técnico foi ele, Lugano. Ou seja, uma negociação provinciana e ainda incerta, é óbvio. Mas a verdade mesmo é que Aguirre já respira os ares de um São Paulo repleto de problemas. Ele terá a difícil missão de resgatar o bom futebol de um time que pena por falta dele. Em caso de sucesso, Aguirre será ovacionado pelo torcedor. Este texto exalta o brilho dos uruguaios no São Paulo. De minha parte, desejo boa sorte a Diego Aguirre e que ele possa sim, retomar o caminho das glórias. Hoje, é de penumbras e incertezas, para um dos clubes mais importantes do nosso futebol e também do futebol mundial.