• Bruno Cassiano

Torcida única não resolve



Era dia vinte de agosto de 1995, nesta data aconteceu o choque-rei que mudaria a forma como encaramos um problema. A partir deste dia o olhar voltado para torcidas organizadas de times de futebol passou a ser mais taxativo e discriminatório.


Em campo São Paulo x Palmeiras duelavam pela final da Supercopa São Paulo de Juniores para um Pacaembu dividido. Não foi cobrado ingresso para a decisão e isto atraiu um maior número de torcedores para as arquibancadas. O jogo terminou com a vitória do time alviverde pelo placar mínimo, mas não houve festa.


O efetivo policial enviado para aquela partida não foi o suficiente para conter a invasão de torcedores palmeirenses em campo, desceram para comemorar no gramado o título de seu time. Infelizmente também não conteve os são paulinos, uma guerra começou dentro do Pacaembu.


Foi um confronto brutal entre torcedores, resultando em cento e duas pessoas feridas e uma morte de um torcedor tricolor, oito dias após o ocorrido. Os poucos policiais presentes naquele dia ainda se arriscaram e tentaram, mas não conseguiram conter a selvageria. Foi o primeiro caso envolvendo torcidas organizadas que foi a julgamento no estado de São Paulo.


Em 2006 o Corinthians, embalado pelo pentacampeonato brasileiro de 2005, disputava a Copa Libertadores da América. Até aquele ponto, um título que seria inédito para o clube. O torcedor estava animado, lotava estádios, viajava e cantava esperançoso de que naquele ano o título viria. Não veio.


O jogo era Corinthians x River Plate, da Argentina, válido pelas oitavas de final da Libertadores. A partida anterior entre ambas as equipes teve o placar de 3x2 para o time argentino, isso significava que vencer pelo placar mínimo no Pacaembu faria com que o Corinthians avançasse as quartas de final. Nilmar fez o gol do Corinthians, mas em compensação o time sofreu três gols. O placar final foi 3x1 para o River, mas o jogo nem sequer pôde ser terminado.


Revoltados com o placar e com a atuação de alguns jogadores em campo, torcedores do Corinthians forçaram um dos portões de acesso ao gramado a fim de invadir o campo. Novamente um número baixo de policiais estava trabalhando naquele jogo, mas desta vez conseguiram evitar que o pior acontecesse. As arquibancadas quase em suas totalidades eram de torcedores alvinegros, praticamente um jogo de torcida única.


O Derby Paulista, clássico realizado entre Corinthians x Palmeiras, passou a ter mais jogos no interior do estado, a partir de 2009. Por recomendação das autoridades, os jogos eram realizados em Presidente Prudente. Foi nesta época que pouco a pouco ia caindo em conhecimento público as brigas pré-agendadas por torcedores organizados. Integrantes da Gaviões da Fiel e da Mancha Verde, torcidas organizadas de Corinthians e Palmeiras respectivamente, protagonizavam batalhas em uma das principais avenidas da Zona Norte de São Paulo, a Inajar de Souza, quase 560 quilômetros de distância de onde o jogo era realizado.


A batalha mais notória entre essas duas torcidas ocorreu em vinte e cinco de março de 2012, dia de Derby, que seria realizado no Pacaembu, região central da capital do estado. Nesse dia dois torcedores do Palmeiras vieram a óbito após mais um confronto brutal na mesma avenida de acontecimentos passados. O efetivo enviado para acompanhar a torcida alviverde em caminhada foi de duas viaturas. Os policias nada puderam fazer diante de quase duzentos torcedores trocando socos, chutes e até golpes com barras de ferro. Essa briga aconteceu a mais ou menos doze quilômetros de onde o clássico estava sendo disputado.


Por fim o caso mais recente envolvendo torcedores. Santos x Corinthians protagonizaram mais uma edição do maior clássico alvinegro de São Paulo no último domingo (4). Como o mando de jogo era do Peixe, a arquibancada era toda de torcedores do Santos, uma vez que desde 2016 clássicos paulistas são de torcida única. Durante esse domingo em questão, um torcedor do Corinthians foi espancado até a morte em Itaquaquecetuba, mais de 42 quilômetros de distância da capital paulista.


A decisão de clássicos terem apenas a torcida do mandante no estádio foi tomada pelo promotor de justiça Paulo Castillo, sem qualquer embasamento em números ou fatos. Os casos relatados aqui neste texto, não foram os únicos a acontecer de 1995 para cá, mas apenas dois deles aconteceram dentro de estádios, um deles com praticamente torcida única. O restante dos casos aconteceu a, no mínimo, dez quilômetros de distância dos jogos, por erro de planejamento e efetivo das autoridades. Ter torcida única nos estádios atrapalha o espetáculo e não evita a violência, que na maioria das vezes acontece do portão para fora.


Torcidas e torcedores organizados têm de receber a punição devida, assim como qualquer outro indivíduo que participe de tais confusões, com o rigor necessário, sem qualquer facilidade ou alívio, mas eles não são os únicos culpados nisso tudo. No parcelamento da culpa a fatia das autoridades é tão grande quanto a dos torcedores e clubes. Falta planejamento, falta encarar o problema de frente, novamente.


Ainda estamos longe da solução, mas uma coisa é certa, torcida única não resolve o problema.